Luiz Bonfá – O Violão e o Samba (2009)

Argonautas – Jangada Azul (2018)

Belchior – Alucinação (1976)

Cássia Eller – Cássia Eller (1994)

“Viúvo aos 25”

Quando Cássia morreu em 29/12/01, me senti viúvo. Tinha quase que acabado de fazer 25 e sua morte me tocou na mesma forma com a uma pessoa da família. Na verdade, Cássia era da família: estava comigo nos momentos mais difíceis de minha vida, me aconselhando, me encorajando e literalmente cantando para mim. Hoje, precisamente aos 17 dias do mês de outubro de 2021, havendo postado 99 resenhas sobre os discos que mais amo na minha vida e, pensando em dar um tempo no trabalho de pesquisa e escrita musical, nada mais justo do que encerrar com esta justa homenagem.

Cássia foi e é importante para mim em muitos sentidos, mas principalmente, no sentido de transformação. Com ela eu literalmente fui para a cama, traindo da forma mais natural a tudo o que sintetiza o universo do Heavy Metal, com seus símbolos, mitos e radicalismos. Sim, eu fazia parte deste universo e com ele me sentia plenamente identificado. Até que um dia descobri a força da voz de Cássia, cantando músicas que nem dela eram, mas das quais ela se apropriava com uma paixão que me desarmava e com uma rebeldia que me encantava.

Era uma pessoa desprovida de certas vaidades – pelo menos aquelas as quais a maioria está submetida – , a única coisa que parecia realmente importar para ela era a música. Por isso, ela cantava com toda a sua alma. Neste disco, de 1994, ela fez um trabalho extraordinário e foi justamente o primeiro disco dela que ouvi. Pra falar a verdade, foi um dos discos que mais ouvi na vida. Porque, como disse antes, ela não compunha, mas se apropriava das canções alheias como se dela fossem. E os seus parceiros musicais sempre tiveram orgulho em fazer trocas criacionais com Cássia. E estas trocas sempre foram realizadas com base na relação “poesia x sentimento”, ou seja, eles entravam com as letras e Cássia com a emoção.

Sentir, parecia mesmo ser a sina de Cássia. Ela sentia demasiadamente e isso a colocava, as vezes, num estado de exaustão. A música era a válvula através da qual, expurgava todos os sentimentos ruins. No entanto, com a fama, vieram também os vampiros emocionais que foram drenando suas energias até o ponto em que a música já não parecia dar conta. Cássia desenvolveu um certo tipo de medo das relações que necessariamente se construíram em torno do seu trabalho artístico. Este medo a levou à depressão, que por sua vez, provocaram crises. Das crises existenciais às drogas foi um salto no escuro para o desfecho trágico.

Cássia nos deixou viúvos, mas nos deixou também exemplos de amor, de rebeldia e de inspiração.

Nota: 9/10.


Referências:

Moska – Beleza e Medo (2018)

“Estamos vivendo no limite entre a beleza e o medo”

Após oito anos sem um disco de inéditas, o artista apresenta, “Beleza e Medo”. O novo álbum é o primeiro a ser lançado pela gravadora Deck. Com produção de Liminha, o trabalho traz 10 faixas de sua autoria, oscilando em letras mais otimistas e outras com temas mais soturnos. Entre elas “Meu Nome É Saudade de Você”, já registrada pela cantora e compositora Roberta Campos, e “Minha Lágrima Salta”, que está na trilha sonora da novela Malhação. Ele contou também com parceiros de grande nome em algumas composições: Zélia Duncan em “Medo do Medo”, Zeca Baleiro em “Pela Milésima Vez” e Carlos Rennó, na canção-manifesto “Nenhum Direito a Menos”.

Moska sempre demonstrou ser um artista socialmente consciente e, neste disco, fazendo uso de sua visão aguçada, abordou temas importantes da realidade brasileira de um ponto de vista inusitado. Ele fala de beleza quando aborda aspectos sensíveis de nossa percepção sobre a vida que segue, mas de modo poético e simples; fala de medo para alertar e denunciar questões do cotidiano político e das pessoas que conduzem irresponsavelmente nosso país.

Nesse sentido, estabelece uma relação entre a beleza e o medo. Contrapondo-os e distinguindo-os segundo uma perspectiva individual que afeta a todos de formas diferentes. Será que essa relação é possível? Se sim, onde está o limite entre o que é belo e o que temeroso? Se não, onde está a poesia nesse contexto. Moska deixa a interpretação livre, mas implicitamente sugere que o limite é uma linha imaginária que depende da visão de mundo de cada um e que a poesia existe como ponte entre as diversas realidades do nosso país.

Por falar nisso, Beleza e Medo foi pensado a partir do contexto atual do Brasil e da sociedade como um todo. Em um momento de incertezas, o medo é representado nas novas músicas. A beleza é evocada na poesia presente em cada melodia e o medo é denunciado nas letras de forma inteligentes e perspicaz.

Nota: 8/10.


Referências: