Clapton – A História Definitiva (2012)

“Clapton é Deus!”

Eric Clapton é um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Sua carreira – que cobre cinco décadas – inclui passagens por bandas como The Yardbirds, os Blues Breakers de John Mayall, Cream, Blind Faith, Plastic Ono Band, Bonnie & Delaney e Derek And The Dominos, além do seu trabalho solo, para não falar dos seus festivais Crossroads e da participação em eventos especiais como o Concerto Para Bangladesh, Last Waltz, Live Aid, Secret Policeman’s Other Ball e muitos mais.”

Esta biografia conta a história do homem e do artista. Explica como a genialidade do guitarrista influenciou sua atitude musical e sua forma de interagir o mundo. Porém, o que mais me impressionou foi o fato de Eric ser apresentado como uma pessoa difícil de lidar. Para o bem ou para o mal, o popstar, adorado como um deus, demonstrava comportamentos compulsivos como individualismo e dificuldade em entrar em consenso com seus parceiros e que desejava liderar os grupos de que participou. Como não gostava de ser contrariado, atuou em vários projetos até se consolidar como artista solo.

O livro, recheado de imagens clássicas, não esconde os momentos em que o nosso [anti] herói desceu ao fundo do poço onde permaneceu por períodos em virtude dos vícios em drogas pesadas, tragédias pessoais e crises existenciais) que quase acabaram com sua carreira. Mas também mostra o lado em que Eric foi o amigo preocupado que ajudava aqueles com quem tinha afinidade. E revela, principalmente, que foram os amigos que o salvaram da autodestruição.

Cada álbum corresponde a uma história viciante belamente ilustrada em papel de alta qualidade e o livro encontra-se em promoção em diversos sites como o citado nas referências. Aproveite a oportunidade e saiba tudo sobre a história de um Deus da música que ainda hoje provoca polémicas com suas frases e atitudes.

Detalhes do produto:

Editora ‏ : ‎ Lafonte;
Idioma ‏ : ‎ Português;
Capa dura ‏ : ‎ 256 páginas;
Autor: Chris Weich;
Dimensões ‏ : ‎ 28.2 x 23.8 x 2.8 cm

Nota: 10/10.

Referências:

Neil Peart – Ghost Rider (2014)

“A Estrada da Cura

Após a morte da única filha em um acidente de carro e da esposa, de câncer, tudo num espaço de menos de um ano, o músico Neil Peart passou a vagar pelas estradas feito um fantasma, ou seja, sem motivação, esperança ou fé. Solitário e convivendo diariamente com as lembranças, ele decide viajar sem rumo.

Porém, diferentemente do que você deve estar pensando, esta não é uma história sobre tristeza. É, ao contrário, uma história de superação e cura. A história real de um homem que se lançou na estrada carregando morte e o luto, mas que, conseguiu transformá-los em uma narrativa sobre vontade de viver.

Juntas, todas as viagens totalizaram algo em torno de 90 mil quilômetros rodados, cuja parte menor foi percorrida à esmo, e a outra parte, com foco na busca de novos significados. E ele os encontrou.

Em virtude de tudo o que lhe aconteceu, Neil mudou radicalmente sua perspectiva de vida e o modo de se relacionar com as pessoas e com as coisas. Principalmente com o dinheiro e a forma de consumi-lo.

“A Estrada da Cura”, do próprio, ganhou tradução brasileira 12 anos depois de lançado no resto do mundo. Apesar da expectativa, este mesmo que vos escreve não se debruçou sobre a obra logo de cara. Preferiu guardar a leitura para o momento certo. E o momento pareceu certo quando a banda anunciou sua despedida dos palcos. Iniciei a leitura, abandonei-a e retomei após o falecimento do músico em 7/1/20.

Não acredito que alguém não o conheça, mas caso isso seja possível, Neil Peart foi o baterista de uma das mais importantes bandas de rock progressivo do mundo, o Rush. Neil é considerado um dos maiores e melhores bateristas da história do rock.

Além de baterista, Neil também era o principal compositor da banda.  Aliás, desde 1975, ele escreve todas as letras do grupo. Como tal, sua abordagem literária é construída através de uma prosa bem elaborada. Todavia, um escritor não comercial.

Por isso, algumas vezes não é possível distinguir com clareza o que é e o que não é “enchimento de lingüiça”, mas há falhas e delas falaremos mais adiante. Ocorre que essas “falhas” denotam mais falta de hábito do músico como escritor do que a intenção de enrolar o leitor.

A propósito disto, observe que um dos artifícios mais utilizados pelos escritores que não são do ramo é o de descrever com detalhes aspectos do cotidiano que não estão diretamente conectados à crônica. Então, devemos dar um desconto para o nosso gênio da música.

Para ler e compreender o texto deve-se em primeiro lugar, aceitar o fato de que se trata de uma história real, ou seja, o protagonista experimentou o que posteriormente colocou no papel. Daí que a leitura do livro pode tornar-se muito mais agradável. Por via das dúvidas, não espere uma historia romantizada, mas esteja atento para a POESIA, quando ela se fizer presente:

Aclamado como um dos bateristas mais técnicos do universo do rock/metal, Neil era dotado de uma magia que o distinguia dos demais. Assim, como Bruce Dickinson, do Iron Maiden, era capaz de fazer qualquer coisa que quisesse. E o fazia com perspicácia.

Era um gênio consciente de suas habilidades, mas era, acima de tudo, discreto. E isto ajudou ao trio de que sempre fez parte a se tornar a mega banda que todos admiramos quase que por unanimidade. O papel exercido como roqueiro e motociclista aventureiro contrastava com o de pai de família caseiro e dedicado.

Mas, a vida tranquila e estável do músico deu reviravoltas incríveis a partir do ano de 1997, quando sua filha de 19 anos, pegou a estrada para o que seria o seu primeiro dia de faculdade em Toronto. O trajeto, que poderia ter sido percorrido em 2 horas, tornou-se infinito com a notícia de sua morte, que foi recebida pelos pais muitas horas depois.

A despeito de tudo o que passou, é assim que o músico se introduz no universo do livro e é assim que também nos introduz. Dessa forma, fica claro o que está em primeiro plano e as consequências disso para o que vem a seguir. Sem meias palavras, Neil nos fala sobre o que o pôs em depressão profunda. O desespero foi tão grande que chegou a anunciar para os companheiros de banda que se aposentaria aos 45 anos de idade.

Depois disso, a ladeira parecia não ter fim. As viagens, as pessoas e as coisas, nada foi capaz de parar a tristeza. Segundo relata, a depressão de sua esposa, Jackie, evoluiu para um câncer, que a levou menos de um ano após a partida da filha. E o mais louco de tudo isso, é que ela [esposa] demonstrou aceitar o diagnóstico da doença como uma coisa boa. Ou seja, esperava que a morte aliviasse a dor pela perda da filha.

No primeiro livro, onde estão a maioria das histórias interessantes sobre as experiências da estrada, Neil fala de suas passagens pelo norte do Canadá, Alasca, extremo-oeste canadense, Estados norte-americanos e províncias mexicanas que estenderam o percurso à Belize, república situada entre o México e a Guatemala. Nessa primeira parte da viagem, o aventureiro Neil percorreu em torno de 40 mil quilômetros. Mais tarde, ele atravessaria o Canadá e os Estados Unidos por mais duas vezes.

Como o leitor pode perceber, a história está dividida em dois livros e tanto o final do primeiro quanto o início do segundo versam sobre os mesmos assuntos: experiências turísticas comuns como hospedagem, gastronomia e paisagens. É neste momento que o leitor/fã de primeira hora pode se afastar da leitura: o autor permanece por mais tempo do que deveria tratando de assuntos irrelevantes em detrimento do elemento principal da obra: a cura.

Mais tarde, pela capacidade de abstração de cada um, pode-se chegar à conclusão de que a referida cura não é algo que ocorreu de forma similar àquela em que o médico prescreve um remédio e depois de alguns dias, cumpridas todas as orientações, nos curamos de uma gripe, por exemplo.

Na verdade, o livro não prescreve remédios nem dá conselhos, o que ele faz é compartilhar as experiências pessoais de alguém que teve coragem para tirar a bunda de uma poltrona e se jogar no mundo em busca de novos significados para uma existência quase arruinada.

O livro mostra o lado humano de um astro do rock milionário que passou por algo a que todos estamos sujeitos. Sendo que isto é o que nos iguala, o que nos diferencia, é justamente a capacidade que nem todos temos de reagir diante das circunstâncias.

Assim, uma das principais conclusões a que podemos chegar, diz respeito à forma como lidamos com nossas limitações. E, posteriormente, com o dinheiro e com o modo de consumo. Nesse sentido, a estrada da cura pode ser aquela que percorremos todos os dias em busca de significados – não de respostas – para nossas questões particulares.

Por fim, podemos dizer que as palavras, em si, significam mais do que expressam quando delas nos servimos. E um livro inteiro contém mais significados do que aquilo que o autor efetivamente quis dizer. Então, a missão de um livro se realiza a medida que descobrimos os seus significados.

NOTA: 9/10.

Autor: Neil Peart;
Editora: Belas Artes;
Ano: 2014;
Idioma: Português;
Nº de Páginas: 513.

REFERÊNCIAS

Irapuã Peixoto Lima Filho – Em tudo o que eu faço, eu procuro ser muito Rock and Roll (2010)

” Rock, estilo de vida e rebeldia”

O autor é Doutor em Sociologia e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), membro do Laboratório de Pesquisas em Políticas e Cultura (LEPEC/UFC). Também é pesquisador associado do Núcleo de Pesquisas Sociais da Universidade Estadual do Ceará (NUPES/UECE) e do Núcleo de Estudos em Gestão Política e Desenvolvimento Urbano (GPDU/UECE). Além da temática da Juventude, mantém pesquisas sobre gestão urbana, mobilidade urbana e educação.

Neste livro, o autor realiza, através de uma pesquisa muito consistente, uma análise panorâmica do movimento roqueiro da cidade de Fortaleza, o qual chama de “rede roqueira”. Contexto no qual, atribui ao termo retro mencionado o sentido de conjunto das relações entre bandas de rock, público, produtores de shows, lojas de produtos ligados ao rock e afins. A leitura é de que tal rede passou a se constituir como um movimento capaz de sustentar economicamente, a partir de ações que fomentam eventos de rock e criam condições de consumo de produtos relacionados a este.

O estudo consiste de uma análise sócio antropológica que busca compreender o modo de pertença dos roqueiros aos agrupamentos aos quais estão identificados. No qual “modo de pertença” significa a apropriação e incorporação dos símbolos e posturas do rock, ao comportamento e à vida prática dos fãs do gênero. Sendo que estes símbolos e posturas dizem respeito, na maioria das vezes, ao teor questionador e transgressor do rock, que estabelece uma espécie de diálogo profundo com a rebeldia típica da juventude.

Nesse sentido, o rock expressa, através de uma linguagem muito própria, um conjunto de símbolos contidos nas roupas, nas letras e na atitude musical, que favorece o encontro do jovem, com sua identidade dentro de um grupo em dado momentos de sua formação. Na qual, conforme o autor, são assimilados e adequados, – numa perspectiva mais pessoal, – de acordo com a realidade de cada um e, – numa mais geral, – com a realidade do país, região, cidade, etc.

Na cidade de Fortaleza/CE, a rede roqueira começou a se firmar a partir de um conjunto de ações que permitiu ao jovem, ter acesso aos eventos (shows) e aos produtos do rock (CDs, camisetas e assessórios), pelo surgimento dos coletivos (entidades independentes e/ou ONGs), que, normalmente são capitaneados por gente que incorpora de uma forma mais abrangente o estilo de vida roqueiro (criando música, produzindo shows e/ou trabalhando em lojas de rock). A abertura econômica também contribui para a firmação da rede, visto que, implica em aumento de poder aquisitivo, permitindo também ao público menos abastado, adquirir produtos relativos ao rock como os CDs gravados pelas bandas e os ingressos para os shows.

O autor dividiu os agrupamentos mais atuantes na rede roqueira de Fortaleza em “Metaleiros”, aqueles adeptos das vertentes mais pesadas do Metal, como o Heavy, o Thrash, o Death e o Black metal; em “Alternativos”, aqueles adeptos das vertentes como grunge, indie, etc.; em “Punks”, “Hardcores”, “Skinheads” e “Emos”. Sendo que, conforme diz o autor, “Cada um desses tem forte ligação com os movimentos surgidos no rock dos anos 1970 em diante, ou seja, do punk e seus desdobramentos.”

Assim, a rede roqueira de Fortaleza/CE começou a se consolidar ou a existir de fato, quando passou a produzir e a escoar produtos de rock de todas as espécies. Isto é, quando desenvolveu uma cadeia produtiva capaz de prover um nicho de mercado, onde havia demanda e para a qual passou a existir produção de elementos de consumo.

Nesse sentido, a formação de público consumidor, os músicos (que são aqueles em função da qual, a cadeia forma relações), os produtores de shows e as lojas de produtos relacionados ao rock se ‘associam’ para fomentar e prover a todo tipo de demanda ensejado pelo estilo de vida roqueiro. Fazendo com que, dessa forma, o movimento exista como algo concreto dentro de um cenário econômico volátil cujas perspectivas se orientam para a possibilidade de se criar um mercado sustentável independentemente de conjunturas.

Dessa forma, resgatando elementos da introdução, conclui-se que a obra em questão pode ajudar a reorientar ações por parte de todos os atores (público, artistas, produtores, proprietários de lojas, etc.), operantes na cena em que se constitui a rede roqueira de Fortaleza/CE. Sendo estes atores, o público para o qual o livro se destina. Em tempo, as referidas pesquisas e análises estão validadas cientificamente, constituindo-se em si mesmas, instrumentos de grande valor acadêmico. Da mesma forma, resgata e revela hábitos e costumes do roqueiro cearense em sua forma mais pura de interagir com o caráter universal do estilo de vida roqueiro, destrinchando aspectos culturais intrínsecos ao nosso povo.

Dados da Edição:

Editora:‎ UFC;
Autor: Irapuan Peixoto Lima Filho;
Idioma: ‎Português;
páginas: 359.

NOTA: 9/10.

Referências: