Cássia Eller – Cássia Eller (1994)

“Todo Amor Que Houver Nessa Vida”

Quando Cássia morreu em 29/12/01, me senti viúvo. Tinha acabado de fazer 25 e sua morte me tocou da mesma forma com a de uma pessoa da família. Na verdade, Cássia era da família: estava comigo nos momentos mais difíceis de minha vida, me aconselhando, me encorajando e literalmente cantando para mim. Hoje, precisamente aos 17 dias do mês de outubro de 2021, havendo postado 99 resenhas sobre os discos que mais amo e, pensando em dar um tempo no trabalho de pesquisa e escrita musical, nada mais justo do que encerrar com esta justa homenagem.

Cássia foi e é importante para mim em muitos sentidos, mas principalmente, no sentido de transformação. Com ela eu literalmente fui para a cama, traindo da forma mais natural a tudo o que sintetiza o universo do Heavy Metal, com seus símbolos, mitos e radicalismos. Sim, eu fazia parte deste universo e com ele me sentia plenamente identificado. Até que um dia descobri a força da voz de Cássia, cantando músicas que nem dela eram, mas das quais ela se apropriava com uma paixão que me desarmava e com uma rebeldia que me encantava.

Era uma pessoa desprovida de certas vaidades, – pelo menos aquelas as quais a maioria está submetida – , a única coisa que parecia realmente importar para ela era a música. Por isso, cantava com toda a sua alma. Neste disco, de 1994, ela fez um trabalho extraordinário e foi justamente o primeiro disco dela que ouvi. Pra falar a verdade, foi um dos discos que mais ouvi na vida. Porque, como disse antes, ela não compunha, mas se apropriava das canções alheias como se dela fossem. E os seus parceiros musicais sempre tiveram orgulho em fazer trocas criacionais com Cássia. E estas trocas sempre foram realizadas com base na relação “poesia x sentimento”, ou seja, eles entravam com as letras e Cássia com a emoção.

Sentir, parecia mesmo ser a sina de Cássia. Ela sentia demasiadamente e isso a colocava, as vezes, num estado de exaustão. A música era a válvula através da qual, expurgava todos os sentimentos ruins. No entanto, com a fama, vieram também os vampiros emocionais que foram drenando suas energias até o ponto em que a música já não parecia dar conta. Cássia desenvolveu um certo tipo de medo das relações que necessariamente se construíram em torno do seu trabalho artístico. Este medo a levou à depressão, que por sua vez, provocaram crises. Das crises existenciais às drogas foi um salto no escuro para o desfecho trágico.

Cássia nos deixou viúvos, mas nos deixou também exemplos de amor, de rebeldia e de inspiração.

Nota: 9/10.


Referências:

3 respostas em “Cássia Eller – Cássia Eller (1994)

  1. Pingback: Cássia Eller – Cássia Eller (1994) – Lulu Barbosa

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