Lucas Rocha & Roberto Lessa – All Dogs Cry (2021)

Amanhã, 1º de outubro, os “blueseiros” Lucas Rocha e Roberto Lessa lançarão o single “All Dogs Cry”, Música de Lucas e letra de ambos. 

Lucas Rocha é guitarrista, compositor, produtor e professor natural de São José do Rio Preto-SP, conta com 20 anos de carreira ao lado de bandas como Big Blues, Hammatrio, Sr Malte e em carreira-solo:

Roberto Lessa é natural de Crato-CE e está há 22 anos na estrada como compositor guitarrista e cantor de blues em bandas como Blues Label e Gumbo Blues e desde 2018 atua em carreira-solo:

Esse é o primeiro trabalho musical em conjunto dessa dupla, que se conheceram na formação do coletivo União Brasileira do Blues-UBB, cujo objetivo é trazer mais holofotes para o Blues feito no Brasil. 

Sobre a composição, Lucas conta: 

All Dogs Cry apareceu enquanto caminhava em uma tarde no bairro onde cresci, bem próximo à escola que estudei por muitos anos. Uma tempestade se formava no céu, o vento começava a cheirar chuva. Acelerei o passo ainda encantado com as lembranças e pensando nos problemas da vida. Ouvi um galo cantar na casa onde passava em frente. Seu canto parecia um riso, como se risse de problemas tão fáceis de resolver, mas que incomodavam. Lembrei logo de “The Red Rooster” de Howlin’ Wolf, nascia aí uma ideia que fui cantando até em casa e gravando no celular pra não esquecer. Toquei-a no violão, formatei a música e fiz uma segunda estrofe literalmente chorando pra lua por perder um grande amor. A vida é Blues.

Roberto e Lucas já engataram a terceira marcha na parceria e já estão aprontando uma nova música em parceria que será lançada em novembro de 2021. Fique ligado!

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Gilberto Gil – Refazenda (1975)

Conteúdo integralmente reproduzido do site Music On The Run

Registro foi o primeiro da Trilogia Ré, completada com Refavela (1977) e Realce (1979)

É possível dizer que Refazenda nasceu no período em que Gilberto Gil estava no exílio, porque foi em Londres que ele ficou com saudade de casa. Não só dos amigos e de seu estado de origem, a Bahia, mas da música. Alguns projetos foram feitos e finalizados antes da gravação do disco acontecer, como um compacto não lançado pela gravadora Phonogram, o compacto – esse comercializado – “Maracatu Atômico” e o álbum Gilberto Gil ao Vivo (1974).

O ano seguinte foi dos mais importantes da carreira do cantor. Primeiro, ele e Jorge Ben lançaram o disco Gil & Jorge – Ogum Xangô, já com “Essa É pra Tocar no Rádio” no repertório – faixa viria a fazer parte do futuro álbum. A ideia era de um retorno às origens, inspirado na música de Luiz Gonzaga (1912-1989), na música regional que costumava ouvir quando mais jovem. Enfim, toda e qualquer manifestação cultural vinda do nordeste. Mas não só isso. Era também algo de teor muito pessoal, muito do fundo da alma.

Mas também tinha muito da influência do tempo em Londres, da cena local, do Small Faces a Jimi Hendrix, toda essa nova geração de músicos que estava surgindo justamente na época em que Gil, Caetano Veloso e outros brasileiros estavam na cidade, além da influência de Miles Davis (1926-1991). O álbum era a fusão do passado e o presente de Gilberto Gil, da relação com a música, do menino que ouvia forró e do adulto que estava vivendo, ainda que a contragosto, uma experiência nova fora do Brasil.

“Há vários elementos que convergem para o Refazenda. Primeiro, minhas referência lá do sertão, na Bahia. Vivendo profundamente essa cultura do homem sertanejo, da caatinga, da música folk nordestina. Tudo isso está na minha origem primeira, o encantamento com Luiz Gonzaga, um dos grandes mestres da música nordestina. Depois, o desembocar disso tudo no tropicalismo. Torquato [Neto] (1944-1972) era de origem nordestina, [José Carlos] Capinam… Todo mundo era caatingueiro, sertanejo. Essa vertente [música nordestina] sempre foi a principal na minha expressividade”, disse Gil ao programa ‘Som do Vinil’, do Canal Brasil.

O reencontro com grandes músicos rendeu um trabalho espetacular em vários quesitos. Se as melodias eram bem elaboradas, as letras também eram refinadas e mostravam uma clara evolução de Gil como compositor. “Nós fizemos [o disco] dentro de um sistema que tinha naquele tempo… A sanfona, o violão e o nosso modo de tocar. Foi um dos trabalhos mais lindos que fiz até hoje”, disse Dominguinhos (1941-2013), também em entrevista ao programa ‘Som do Vinil’.

Dominguinhos, aliás, é peça fundamental na engrenagem do novo álbum. Porque ele é esse elo entre o passado e o presente que Gil procurava. E encontrou no sanfoneiro um resumo disso. “Dominguinhos é o símbolo disso. Nordestino, discípulo de Luiz Gonzaga, mas completamente integrado ao pluralismo da música brasileira. É um disco de reentrada. O título mostra isso, mas também significa marcha ré. É para mostrar as etapas anteriores à minha formação musical”, falou.

Refazenda colocou Gilberto Gil em outro patamar, musical e pessoal. Ao redescobrir a si mesmo, ele acabou apresentando um trabalho impecável e fundamental para entender de onde o cantor veio e para onde ele estava indo. A turnê do disco durou até o início de 1976, quando ele uniu-se a Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia para no projeto Doces Bárbaros.

Resenha do disco:

A deliciosa faixa “Ela” abre o trabalho mostrando como Gilberto Gil é um cara muito especial para compor músicas. O gingado e suingue dela mostra todo esse potencial dele em fazer um tipo de canção pop que só ele consegue – os arranjos são ótimos. Para abrir o álbum, colocar o pessoal para dançar é sempre uma boa escolha, ainda mais vindo de quem vem.

Da dupla Anastácia e Dominguinhos, “Tenho Sede” tem aquele simbolismo do retirante nordestino ao deixar o lar. Se o cantor estava retornando ao simples, essa faixa não tem nada disso. Ao contrário, a complexidade dos arranjos e da letra melancólica (Traga-me um copo d’água, tenho sede/ E essa sede pode me matar/ Minha garganta pede um pouco d’água/ E os meus olhos pedem teu olhar) são fundamentais para compreender o álbum. Aqui, a versão escolhida é uma ao vivo que consegue transmitir todos esses sentimentos.

Outra faixa muito complexa é “Refazenda”. De ritmo infantil e de fácil acompanhamento, tem ótimas sacadas e rimas fáceis de lembrar. Mais uma vez, prestem atenção ao arranjos no fundo. O passado está nas palavras (Abacateiro serás meu parceiro solitário/ Nesse itinerário da leveza pelo ar/ Abacateiro saiba que na refazenda/ Tu me ensina a fazer renda que eu te ensino a namorar), mas o presente está na qualidade das melodias. Que trabalho espetacular.

Gil afirma que “Pai e Mãe” “foi o primeiro manifesto da nova afetividade que se desenvolvia na época, indiscriminada com relação à sexo”, principalmente pelo verso Eu passei muito tempo/ Aprendendo a beijar outros homens/ Como beijo o meu pai. Além disso, é uma faixa muito bonita sobre afeto, já “Jeca Total” tratou do Brasil daquela época de maneira muito simples e eficiente. E a experimental “Essa é pra Tocar no Rádio”, inspirada em um disco de Miles Davis que o cantor estava ouvindo, é uma ironia ao fato de ele não tocar no rádio.

Ficha técnica

Tracklist:

1 – “Ela” (02:53)
2 – “Tenho Sede” (03:46) (Anastácia e Dominguinhos)
3 – “Refazenda” (03:08)
4 – “Pai e Mãe” (03:52)
5 – “Jeca Total” (02:53)
6 – “Essa é pra Tocar no Rádio” (03:03)
7 – “Ê, povo, ê” (04:11)
8 – “Retiros Espirituais” (04:51)
9 – “O Rouxinol” (02:39) (Gilberto Gil e Jorge Mautner)
10 – “Lamento Sertanejo” (04:20) (Dominguinhos e Gilberto Gil)
11 – “Meditação” (01:52)

Gravadora: Warner Music.
Produção: Mazola
Duração: 38 minutos

Gilberto Gil: arranjos de base, violão e vocal

Convidados:

Dominguinhos: sanfona
Momó e Rubão Sabino: baixo
Chiquinho Azevedo: bateria
Aloisio Milanes: piano elétrico
Perinho Albuquerque: coordenação musical e arranjos de orquestra

Spotify:


Fonte:

Cartola – Cartola (1976)

Conteúdo integralmente reproduzido do site Music On The Run

“Disco do sambista o consolidou como um dos grandes compositores brasileiros de todos os tempos”

História do disco:

Apenas dois anos antes, Angenor de Oliveira (1908-1980) havia lançado seu primeiro disco como intérprete. O mangueirense Cartola teve sucesso e reconhecimento na velhice, coisa que raramente acontece no Brasil. Importante compositor carioca por muito tempo, ele precisou apenas sobreviver durante boa parte de sua vida. Foi pedreiro, lavador de carro e contínuo (popularizado anos depois como office boy). Tudo para ganhar uns trocados e colocar comida na mesa, realidade de muitos brasileiros até hoje.

Em entrevista ao jornal ‘O Globo’, no ano do lançamento de seu segundo disco, Cartola explicou o motivo de ter ficado tanto tempo sumido. “Eu estava com uns 30 e tantos anos. Trabalhava como pedreiro e compunha meus sambas. De repente, veio a meningite. Fiquei dois ou três dias em estado de coma, e depois passei um ano e meio andando de muletas, sem firmeza nas pernas. Foi uma fase difícil. Eu nunca fui chegado a viver socado em rádio ou televisão. Nunca fui de procurar cantor pra pedir gravação das minhas músicas. Acho que quando a pessoa grava sem sentir, não sai bom”, contou.

Depois de toda essa dificuldade, ele e a mulher, a Dona Zica (1913-2003), abriram o restaurante Zicartola, ponto de reunião de alguns dos principais nomes do samba e outros nomes importantes da música daquele tempo, fervilhava. Fechado em 1974, não deixou uma herança financeira para os donos, só lembranças eternas para quem esteve lá e viu muita coisa acontecer. Foi nesse ano que aconteceu o lançamento do primeiro disco do então estreante nos vocais, aos 66 anos, muito bem recebido pela crítica, público, amigos e incentivadores. O trabalho foi eleito o melhor daquele ano.

Se o primeiro LP passou pela vontade do produtor João Carlos Botezelli, o Pelão, um craque que colocou como objetivo de vida gravar Cartola, e do diretor artístico Aluizio Falcão, é impossível também não lembrar de Marcus Pereira (1930-1981). Com seu nome, a gravadora era uma maneira de realizar seu sonho de disponibilizar discos para celebrar a música regional brasileira. Iniciada em oficialmente em 1973 – Pereira já gravava discos, mas para presentear seus clientes da agência de publicidade na qual trabalhava –, a gravadora lançou mais de 140 LPs e entrou para história pela independência, ousadia e sucesso. As atividades acabaram em 1982, um ano depois da morte de Pereira. Hoje, o acervo de Cartola está sob controle da EMI.

Para o segundo disco de Cartola, Juarez Barroso (1934-1976) foi convidado para produzir, muito pelo fato de Pelão e Falcão terem deixado a Marcus Pereira no ano anterior. Formado em ciência jurídicas e sociais pela Universidade Federal do Ceará, Barroso nunca se interessou muito em ser advogado. Segundo amigos próximos, ele sempre teve disposição para as letras – poesia e jornalismo. Entre idas e vindas, de Fortaleza ao Rio de Janeiro, foi parar n’O Globo’ graças ao interesse em música brasileira e ficou conhecido no meio por ser uma enciclopédia ambulante no assunto. Quando convidado a ser o produtor do LP, trabalhava no caderno de cultura do ‘Jornal do Brasil’.

O novo nome na produção não significava uma mudança brusca de pensamento. Ao contrário, Barroso era amigo de Cartola e conhecia bem os trabalhos do sambista nas composições – certo dia, no início dos anos 1970, Cartola esteve na redação do jornal em que Barroso trabalhava e foi reconhecido apenas pelo jornalista. A intenção era manter ao máximo o estilo que o consolidou no primeiro disco, por isso foi fundamental a continuidade de Dino 7 Cordas como arranjador.

Considerado por muitos o melhor disco lançado pelo sambista, o registro de 1976 está em várias listas e é aclamado até hoje como um dos grandes do gênero. Então aos 68 anos, Cartola atingia o auge do sucesso e reconhecimento público de suas geniais composições.

Resenha de Cartola (1976):

Um LP que começa com “O Mundo É um Moinho” já merece palmas logo de cara. Essa composição, uma das mais bonitas da música brasileira, ganha um tom delicado com a flauta no início e o violão fazendo o acompanhamento de forma leve, mas a letra é bem triste e fala sobre uma decepção amorosa. Regravada aos montes por aí, nenhuma bate a interpretação original. Depois a faixa ganha força da presença de mais instrumentos, porém o tom continua seguindo a sobriedade das palavras ditas.

“Minha” é outra também melancólica. O tom mais animado ajuda a dar um tom de resignação do personagem principal, que acreditou em “cartomantes, bolas de cristal e cigana” quando contaram a ele que ela seria dele até o fim. Para exaltar a escola de samba Mangueira, “Sala de Recepção”, com a participação de Creuza dos Santos (1927-2002), foi composta em 1940 para homenagear a então novidade no carnaval carioca. No Rio de Janeiro, escola de samba é coisa muito séria – mais importante que time de futebol.

Uma típica faixa composta para reclamar da atitude de uma mulher, “Não Posso Viver Sem Ela” é sobre o homem que sempre perdoa, mesmo sabendo dos defeitos e dos pecados da amada em uma gafieira das mais animadas. A seguinte, a linda “Preciso Me Encontrar”, foi um pedido de Barroso ao amigo e também sambista Candeia (1935-1978) para o disco. E ninguém mais do que Cartola conseguiria cantar a angústia de sair por aí sem destino, enquanto a mágoa o corrói por dentro. A saudade é tema de “Peito Vazio”, o encerramento do lado A.

E o lado B abre com outra faixa de letra melancólica, “Aconteceu”, mas, de novo, o tom animado esconde que o personagem está dispensando a antiga amada por não amá-la mais. Outro clássico, “As Rosas Não Falam” nasceu de uma dúvida de Dona Zica sobre ter tantas rosas logo após serem plantadas. Cartola simplesmente respondeu: “não sei, as rosas não falam”. Dessa frase nasceu outra grande composição do sambista sobre a melancolia do amor.

“Sei Chorar” trata de uma pessoa já experiente na arte da decepção amorosa que fica desapontada por um amor platônico, já “Ensaboa” é uma faixa simples sobre o hábito de lavar roupa no rio. E se “Senhora Tentação”, de Silas de Oliveira, traz a adrenalina do duelo interno de sucumbir à tentação, “Cordas de Aço” é uma homenagem ao eterno companheiro de composição: o violão.

As composições de Cartola são a fina flor do samba brasileiro. Poucos conseguiram traduzir o cotidiano em canções tão simples de entendimento. Esse disco deveria ser estudado nas escolas de tão bom que é e por trazer letras incríveis.

Ficha técnica

Lado A

1 – “O Mundo É um Moinho” (Cartola) (3:53)
2 – “Minha” (Cartola) (2:16)
3 – “Sala de Recepção” (Cartola) (3:24)
4 – “Não Posso Viver Sem Ela” (Cartola, Bide) (2:40)
5 – “Preciso Me Encontrar” (Candeia) (2:57)
6 – “Peito Vazio” (Cartola, Elton Medeiros) (2:50)

Lado B

1 – “Aconteceu” (Cartola) (3:53)
2 – “As Rosas Não Falam” (Cartola) (2:51)
3 – “Sei Chorar” (Cartola) (2:26)
4 – “Ensaboa” (Cartola) (3:24)
5 – “Senhora Tentação” (Silas de Oliveira) (3:03)
6 – “Cordas de Aço” (Cartola) (2:15)

Gravadora: Marcus Pereira Discos
Produção: Juarez Barroso
Duração: 35min52s

Cartola: voz

Convidados:

Altamiro Carrilho: flauta
Canhoto: cavaquinho
Dino 7 Cordas: violão de sete cordas e arranjo
Elton Medeiros: ganzá, tamborim e caixa de fósforos
Gilson de Freitas: surdo
Guinga e Meira: violão
Coro do Joab: vozes
Jorginho do Pandeiro: pandeiro
Nelsinho: trombone
Nenê: cuíca e agogô
Wilson Canegal: reco-reco
Airton Barbosa: fagote
Abel Ferreira: saxofone tenor
Zé Menezes: viola de dez cordas
Creusa: vocal em “Sala de Recepção” e “Ensaboa”

Spotify:


Fonte:

Matthew Halsall – Colour Yes (2009)

“Uma oração feita com amor para o Deus que existe em cada um de nós

Sending My Love, álbum de estreia, colocou Matthew Halsall no mapa do jazz no Reino Unido. De fato, trouxe uma certa iluminação para o estilo como um todo e lhe rendeu elogios de todos os setores da imprensa especializada daquele país. O estilo e as composições expressivas profundamente enraizadas na dimensão mais espiritual do jazz, combinadas com arranjos sutis e produção acima da média, fizeram com que o lançamento se tornasse algo muito maior do que apenas a estreia de um jovem e talentoso músico. O álbum serviu como uma espécie de boas-vindas ao que viria pela frente e uma celebração à música feita com alma.

Porém, foi com Colour Yes que Halsall surgiu para o mundo. Intérprete apaixonado e músico comprometido, o artista nos brinda com seu segundo álbum, que contém 6 (seis) composições inéditas e de altíssimo nível. Desta vez, o multi-instrumentista recrutou os talentos de Nat Birchall (sax), Adam Fairhall (piano), Gavin Barras (baixo), Gaz Hughes (bateria), Marek Dorcik (bateria) e Rachael Gladwin (harpa) para que, sob sua direção artística, realizassem atuações impecáveis. O resultado é nada menos do que mais um lançamento brilhante em todos os sentidos. Um disco atemporal que não se aflige com o passado e nem teme o futuro. São canções convergentes que nos conduzem a um estado de contemplação silenciosa. Assim como uma oração feita com amor para o Deus que existe em cada um de nós.

Sobre as composições:

O swing pacificador da faixa de abertura, 1) Color Yes, nos mostra um pouco da visão de mundo do autor, que ele leva para a música. 2) Together é uma peça transcendental que alimenta o espírito de Starless and Bible Black de Stan Tracey e Shades Of Blue de Neil Ardley, na interpretação de Don Rendell e Ian Carr Quintet. 3) I’ve Found Joy e 4) Mudita são temas característicos do jazz feito para os casais flutuarem nos salões de dança e tem uma seção rítmica assemelhada aos clássicos de Bill Evan em I’ve Been Here Before e mostra o respeito de Matthew pelos antigos mestres da tradição modal. 5) I’ve Been Here Before, é mais um tema para reflexão em que o espaço entre as notas quase significa tanto quanto as próprias notas criando uma atmosfera de letargia deliciosamente boa. As intervenções da harpa de Rachael Gladwin traz uma sensação de fluidez para a música. 6) Me and You é algo que nos insere no mundo melodioso de Dorothy Ashby e Alice Coltrane, mas sem a presença da voz como o centro das atenções. 7) It’s What We Do e 8) Ai são bonus track colocados no disco para torná-lo mais atrativo, mas que acabam por levar o álbum a um propósito ainda maior: o de nos apaziguar com nós mesmos e com o mundo.

Nota: 9,5/10.


Referências:

Kim Wilson – Smokin ‘Joint (2001)

“Blues de branco pra preto nenhum botar defeito”

“Brancos” podem tocar blues? Claro, não há porque duvidar da autenticidade musical quando a contrapartida é o talento. O surgimento do Rock & Roll é a maior prova disto. Por falar nisso, o vocalista e guitarrista Kim Wilson – mais conhecido como o líder dos Fabulous Thunderbirds – dá uma aula de blues em seu álbum solo de 2001, Smokin ‘Joint. O disco foi gravado ao vivo com duas bandas diferentes ao longo de quatro noites. As gravações ocorreram em ocasiões diferentes: a primeira seção, em 1999 no The Rhythm Room na cidade de Phoenix/Z, e a segunda, em 2000, no Cafe Boogaloo, na cidade de Hermosa Beach/CA. São 13 músicas que compõem uma mistura de autorais e clássicos do blues.

Wilson usou a mesma seção de ritmo do baixista Larry Taylor e do baterista Richard Innes em ambas as bandas. Os guitarristas Rusty Zinn e Billy Flynn atuaram na primeira seçao, enquanto os guitarristas Kirk Fletcher e Troy Gonyea e o pianista Mark Stevens, na segunda. Wilson não chega a romper nenhum paradigma musical com este trabalho, ao contrário do que fazia com a Fabulous Thunderbirds, quando músicas como Tuff Enuff, Wrap It Up e Powerful Stuff figurava nas paradas pop – mas, ao que parece – com este trabalho, seu maior propósito é justamente resgatar a magia dos pequenos pubs lotados e performances cheias de energia.

Numa breve descrição, podemos dizer que Ain’t Gonna Do It, Oh, Baby, Got to Let You Go e I Can Tell têm um toque de jazz, enquanto que Good Time Charlie, Early in the Morning, Telephone Blues e High & Lonesome fluem na linha do blues tradicional. Entre os autorais estão a faixa título Smokin ‘Joint, um instrumental com um sabor de rock and roll dos anos 50 e Learn to Treat Me Right, que evolui para um R&B / Rock & Roll dos anos 60. Em geral, a versatilidade de Wilson e o jogo de harmônicas fazem uma combinação perfeirta, criando uma atmosfera típica dos shows de blues.

Nota: 8,5/10.


Referências: