Noora Noor – Soul Deep (2009)

“Para atender à variados níveis de exigências”

Noora Noor cresceu nos Emirados Árabes Unidos, de onde partiu para a Noruega aos 9 anos de idade com sua família refugiada por motivos políticos. Seu pai era da Somália e sua mãe, do Yemen. Noora ficou conhecida como a Rainha do Soul na Noruega desde que, aos 15 anos, assinou contrato com a Warner Music. Além de cantora, ela tem um forte compromisso com o trabalho humanitário. Entre outros projetos, foi embaixadora da Ajuda Popular da Noruega e fez outros trabalhos para a causa humanitária.

Soul Deep é um retorno da artista às suas raízes soul e funk. Um trabalho bem cuidado e genuinamente tocado ao vivo no estúdio. A maioria das canções são suas, mas também há clássicos de compositores norte-americanos, como Move On Up, de Curtis Mayfield. Noora pegou suas músicas e lhes deu vida nova. Outra coisa importante sobre este disco é que contou com a participação vários músicos americanos de blues e soul, entre eles os membros de Little Charlie & The Nightcats.

O álbum foi gravado em San Jose, Califórnia, com o famoso guitarrista e produtor Kid Andersen num período de 12 dias. Andersen foi da Noruega para os EUA para tocar guitarra no álbum, mas acabou atuando também na produção do trabalho. Seu estilo bluesistíco somado à abordagem mais moderna de Noora fez com que o álbum soasse como os clássicos devem soar, mas de uma forma mais contemporânea.

A música aqui contida agrada muito facilmente. E como todo bom disco deve ser, Soul Deep foi elaborado para atender à variados níveis de exigências. Da música feita tocar no rádio: 3) Funky Way, para reflexão: 4) Forget What I Said, para tocar mais forte o coração: 8) Dedication e , finalmente, para não pensar em nada: 12) You Will Aways Be Free. Ouça e eleja seus próprios destaques.

Nota: 8,5/10.


Referências:

Iyeoka – Say Yes (2010)

“Para vários estados de espírito”

Natural de Boston /USA, ela começou sua carreira musical fundando o grupo The Rock, a partir de um coletivo de músicos que lhe permitiu entrelaçar sua às raízes do jazz, blues, funk e até do gospel. Em 2004, lançou seu primeiro álbum solo cujas letras são poesias de sua autoria, intitulado Black and Blues. Seu nome artístico significa algo como “quero ser respeitada” e isto, por si só, diz muito sobre a artista e sobre sua música.

Say Yes é o seu segundo álbum de estúdio e, além de entreter, busca afirmar as raízes afro da artista. Para nós brasileiros, exemplos de miscigenação, o disco pode ser um primor no que diz respeito à mistura de estilos com vistas a criar algo novo. Se bem que nem tudo é original neste álbum de 11 músicas. Mas tem muitos pontos fontes dentre os quais vale ressaltar a coragem da artista em falar dos desequilíbrios sociais aos quais todo o povo afro no mundo sempre esteve submetido. E ela trata destes temas com orgulho e paixão. Durante a audição fica notório o gosto da cantora por estilos como regue, soul, jazz e funk, mas o trabalho é, orientado para a dance music que, certamente, é o seu nicho. Ao contrário do que muitos devem estar pensando agora, não é um disco difícil de ouvir – ao contrário – é bom e pode corresponder a muitos estados de espírito.

Os destaque do disco são: 4) Breakdown Mode, que tem uma batida acelerada e uma fonética inspirada no estilo dos rappers americanos. 6) Simply Falling, que é uma verdadeira peça artística no sentido de expressar força e sensualidade. 8) I Travel Home, uma narrativa declamada que, além de contar uma história de cunho pessoal, também é “poesia”.

Nota: 8/10.


Referências:

Depeche Mode – Playing the Angel (2005)

“Sobre luxúria e religião, fragilidade e força”

Depeche Mode é uma banda inglesa fundada em 1980. A formação original do grupo consistia em Dave Gahan (vocal principal), Martin Gore (teclados, guitarra, vocalista), Andy Fletcher (teclados) e Vince Clarke (teclados, compositor principal de 1980 até 1981) com variações ao longo dos anos. Idolatrada por muitos, desde o início em Basildon / Essex, o Depeche Mode está na ativa deixando sua marca musical há mais de 30 anos.

Playing the Angel é o décimo primeiro álbum do grupo e o primeiro com Dave Gahan como vocalista e co-autor. O título foi retirado da canção que fecha o disco, The Darkest Star. Para os fãs do estilo, o álbum pode ser considerando um dos trabalhos mais orgânicos em virtude de, nele, haverem sido usados MAIS sintetizadores analógicos do que digitais. Além disso, a maioria dos arranjos estão mais simples e polidos do que em muitos dos trabalhos anteriores. Alguns fatos curiosos do processo de gravação do disco dizem respeito a 1) acredita-se, que o desenho da capa (arte de Anton Corbijn) seja uma referência a uma famosa fotografia de Robert Smith, do The Cure, sobre a canção Boys Don’t Cry; 2) em meados de 2005, o vídeo inacabado de Precious vazou na rede. Acredita-se que o “vazamento” tenha sido causado pelo site da equipe de produção contratada para a fazer o vídeo como uma estratégia de marketing. Não importa! Como, primeiro single, Precious bebe na mesma fonte de Enjoy the Silence. Lenta, mas com linhas de sintetizadores cujo efeito pode ser ácido para alguns, mas cheia de beleza para outros.

O disco, porém, não se resume à Precious. Tudo o que os fãs esperam está aqui: melodias estranhas; letras, que versam sobre as contradições humanas como psicologia e religião, ética e legalidade, política e filosofia, etc e tal. O triou passou sua vida toda realizando trocas com sua audiência, mas os tempos mudaram e se tornaram uma banda adulta que faz música contemporânea para um público extremamente heterogêneo. Então, podemos entender que sua missão hoje é mais difícil do que foi no passado. Mas eles não decepcionaram com este disco. Em alguns momentos, pode até se tornar repetitivo, mas de um jeito mais refinado e consciente.

Nota: 8,5/10.


Referências:

ZERØ – Carne Humana (1987)

“Letras introspectivas e um certo desprezo pela indústria”

ZERØ é uma banda formada em 1983 por Fabio Golfetti, Alberto “Beto” Birger, Cláudio Souza, Gilles Eduar, Nelson Coelho e Guilherme Isnard na cidade de São Paulo. O grupo surgiu numa época em que as bandas do estilo eram marcadas por um lirismo insipiente, e talvez, justamente por isso, uma época romântica. Nos anos oitenta, para simplificar, colocávamos todas as bandas nacionais no balaio do Rock Brasil, mas se quiséssemos definir esta banda de uma forma mais conceitual, certamente não se encaixaria num estilo estático, pois sua música era influencia por bandas góticas como Joy Division, The Cure e Depeche Mode, entre outros. Estas influências se ajustavam ao jeito brasileiro de fazer música, criando algo diferente do que era popular na época.

Carne Humana (1987) traduzia o romantismo de uma época bem difícil para a juventude brasileira. O país acumulava crises: planos econômicos fracassados seguidamente e o desemprego somava-se à inflação criando monstros que brincavam com a realidade e nos infantilizava. Nossos medos juvenis fortaleciam esses monstros e tornava a existência mais insuportável. Todavia, havia os idealistas que, cultivando a melancolia, alimentavam a esperança. ZERØ era uma das últimas existencialistas de sua época e isso estava explícito nas suas letras introspectivas. Suas músicas espelhavam angústias juvenis no momento que precedia a transição do regime militar para a “democracia” e conseguiam expressar o sentimento dos muitos que desejavam e lutavam por dias melhores. Suas músicas, produziam a sensação de um enorme desconforto e isto nos encorajava a encarar os nossos medos de uma forma resignada e bela. Era um jeito simples, mas eficaz de denunciar e protestar contra as “ante liberdades”, tão banais nos dias de hoje. A banda tornou-se símbolo de sua época por causa de letras introspectivas e melancólicas e por demonstrar um certo “desprezo” pela indústria nacional da música.

NOTA: 9/10.


Nota do Editor:

  • Está é uma matéria antiga, de minha autoria, para o portal Whiplash.net

Old Fire – Songs From The Haunted South (2016)

“Um ato de amor”

Projeto idealizado pelo músico e multi-instrumentista John Mark Lapham. Ele é o responsável por juntar nomes como DM Stith, Warren Defever, Rebekka Karijord, Robin Allender, Christopher Barnes, Semay Wu, Tom Rapp, Sara Lowes, Christian Madden, Alex Maas, Danny Norbury, Bob Hoffnar, Alex Hutchins, Lindsey Kuykendall, Mark Kuykendall, Elizabeth Warren, Ieva Berberian, Joe Ryan e Thor Harris para produzir uma obra única e de sentido amplo.

O álbum levou quase uma década para ficar pronto. Songs From The Haunted South é definido pelo autor como um “ato de amor”. O conceito do álbum nasceu de uma ideia para um projeto da 4AD (gravadora independente britânica). Porém, após separar-se do cantor Micah P Hinson, o álbum, que originalmente foi concebido com o propósito de juntar alguns cantores e músicos fazendo versões para canções que marcaram sua vida, foi expandido para mais vozes que ele considerava especiais e que poderiam se encaixar melhor na sua inspiração.

As primeiras peças do quebra-cabeça juntaram-se após conhecer o ex proprietário do selo 4AD, Ivo Watts Russell, que apresentou Lapham a Tom Rapp, um artista que gravou uma série de álbuns obscuros no final dos anos 60 e 70 sob o nome de Pearls Before Swine. Os vocais de Tom formaram a base da faixa Shadows. Nos anos seguintes, os vocalistas convidados foram gravados por Sara Lowes (The Earlies), DM Stith, Christopher Barnes (Gem Club), Rebekka Karijord e Alex Maas (Black Angels). O projeto também conta com instrumentistas excepcionais, incluindo DM Stith no piano e violão, Christopher Barnes (Gem Club) no Piano, Warren Defever na guitarra, Thor Harris (Swans) na bateria, Christian Madden no piano Rhodes & Organ e Semay Wu no violoncelo.

O álbum de 13 faixas contém uma seleção de músicas que, de uma maneira ou de outra, são dedicadas a diversas pessoas, algumas delas, falecidas. Musicalmente, as inspirações vão desde artistas como Brian Eno e Stars of the Lid e com influências de Rock Psychedélico, a Country Music tradicional e similares. Poder ouvir as composições originais do Old Fire e compará-las com suas versões para canções de outrem é uma experiência bastante  intrigante. Lapham interpreta músicas da Psychic TV (The Orchids), Low (Laser Beam), Ian William Craig (A Sight Grip, A Gentle Hold), Jason Molina (It`s Easier Now), Camberwell Now (Know How) e Shearwater (Helix).

Por fim, Songs From The Haunted South é um disco para pessoas com ouvidos abertos e simples de coração. Um trabalho fácil e, ao mesmo tempo, difícil de classificar, pois depende muito do estado de espírito do ouvinte no momento da audição e do tipo de experiência que se busque ao ouvi-lo. No final das contas, não importa se você irá gostar ou não. De um jeito ou de outro, não poderá negar o esforço do autor em construir algo original e nem duvidar do bom gosto colocado na obra.

Nota: 9/10.


Referências: