Sonny Rollins – Freedom Suite (1958)

“Consciência política e alcance poético”

Walter Theodore “Sonny” Rollins é um saxofonista norte-americano reconhecido como um dos mais importantes e influentes músicos de jazz. Em uma carreira de sete décadas, ele gravou mais de sessenta álbuns como artista principal. Várias de suas composições, incluindo St. Thomas, Oleo, Doxy, Pent-Up House e Airegin, tornaram-se parâmetros para muitos artistas de jazz. Ganhou fama de “o maior improvisador vivo do mundo”.

Em 1958, quando gravou o álbum Freedom Suite, sua consciência política teve que se expandir para fazer jus ao alcance poético de sua música. Ao abordar seu lugar como um artista criativo e afro-americano, reconheceu que ambos os aspectos de seu “ser artístico” existiam em função de circunstâncias sociais injustas, e que era hora de falar sobre as desigualdades do seu país.

Ao gravar com o baixista Oscar Pettiford e o baterista Max Roach, se alinhou com alguns do mais inovadores músicos do jazz moderno que se alinhavam com o seu ideal de liberdade:

Pettiford mostrou um talento incrível para realizar sincopações sem perda de ritmo ou do senso de harmonia. Suas meias notas no ápice de Will You Still Be Mine? cria uma série vibrante de trocas entre os músicos do trio, enquanto seu solo encantador destila a melodia em seus componentes mais suaves. Mas é Freedom Suite, com suas variações imprevisíveis, interlúdios e desfechos, que vemos o quanto é genial.

Roach tem um seu senso inventivo tão notável quanto sua disciplina. Ele é capaz de executar algo criativo onde antes parecia não haver espaço. Um bom exemplo disto é na faixa There Will Never Be Another You, com sua afetuosa introdução que funciona como uma espécie de paródia e serve como um chamado para a ação. Ele cria as condições para que os temas e os demais músicos, contrastantes, se cruzem sem se chocar num movimento oscilante e dinâmico.

Nota: 10/10.


Buddy Tate & Humphrey Lyttelton – Kansas City Woman (1974)

“Um tributo à Buck Clayton”

Embora Buck Clayton, por problemas de saúde, não tocasse mais trompete em 1974, continuava escrevendo composições marcantes. O saxofonista tenor Buddy Tate e o trompetista Humphrey Lyttelton (ambos clarinetistas) se propuseram a tocar algumas músicas de Buck em um septeto inglês, que incluía o saxofonista Bruce Turner, a tenor e barítono Kathleen Stobart, o pianista Mick Pyne, o baixista Dave Green e o baterista Tony Mann. O material (oito canções escolhidas à dedo) pode parecer obscuro, mas a música é bastante agradável. A bem da verdade, a banda arranjada (ou formada de improviso) por Clayton, funciona como um “algo a mais” no trabalho idealizado por Lyttelton.

A parceria de Lyttelton e Tate é um dos eventos memoráveis da história do jazz e rendeu outros registros marcantes. Isto, no entanto não deve obscurecer a presença dos demais integrantes deste projeto. Todos donos de talentos inatos, com carreiras em ascenção e/ou discos gravados. O septeto era composto por: Bruce Turner (Alto Saxophone, Clarinet), Kathleen Stobart (Baritone Saxophone, Clarinet, Tenor Saxophone), Dave Green (Bass), Tony Mann (Drums), Mick Pyne (Piano), Humphrey Lyttelton (Trumpet) e Buddy Tate (Tenor Saxophone, Clarinet).

O álbum contém oito canções distribuídas em 42 agradáveis minutos. Embora as músicas aqui apresentadas se identifiquem em muito ao estilo da época, o álbum como um todo é para iniciados. E como tal, exige mente aberta para traços mais obscuros e/ou inovadores da primeira metade daquela década. Claro que o ouvinte pode colocar um pouco do seu próprio ceticismo em tudo o que lhe vir aos olhos e, neste caso, mais especificamente, aos ouvidos. O que quero dizer é que tanto o fato de se achar entendedor quando leigo, pode comprometer o seu julgamento em relação à obra. Portanto, para o bem de ambos, ouça este disco de coração, mente e ouvidos abertos.

Tracklist

A1 Kansas City Woman 5:45
A2 The One For Me 7:24
A3 Pamela 6:02
A4 Candyville 4:14
B1 Outswinger 5:30
B2 Steevos 5:50
B3 Clarinet Lemonade 3:09
B4 Swinging Scorpio 4:45

Nota: 10/10.


Referências:

Aline Lessa – Hoje Falo por Mim (2017)

“Sobre rupturas, mágoas, arrependimentos e afetos”

Depois de seis anos de trabalho com a banda Tipo Uísque e um disco autoral, a cantora, compositora e multi-instrumentista Aline Lessa chega ao seu segundo CD, Hoje falo por mim, pela Biscoito Fino, e com selo da Garimpo (segmento de lançamentos da página Brasileiríssimos) onde dialoga com os sentimentos gerados durante e após a separação de um relacionamento intenso e o impacto que tiveram em sua vida. Aline quis montar uma pequena dramaturgia que passa tanto pela ordem das músicas quanto pela concepção artística do trabalho, assinada pelo artista Caio Riscado. O conceito do disco pode ser percebido em toda a identidade visual do projeto, reverberando uma ideia de renascimento, deixando para trás mágoas, arrependimentos e afetos. Domenico Lancellotti, produtor do disco captou essa ideia e propôs um disco sem pré-produção, uma foto daquele momento, traduzido em arranjos e climas.

“As músicas desse álbum foram todas compostas em um mesmo período. Eu estava vivendo um relacionamento muito intenso e conturbado e o que me trazia leveza era escrever. À medida que iam surgindo, as músicas não só me ajudavam a colocar para fora o que eu não conseguia expressar de forma objetiva, como me contavam o que eu mesma precisava ouvir”, revela. Segundo Aline, as músicas saíram de uma hora para outra, num curto período de tempo. As músicas, assim como os sentimentos que as inspiraram, passeiam por momentos bem densos e introspectivos, como em Hoje, onde Aline se acompanha apenas com o piano, e também momentos mais catárticos como em Eu me cuido brilhantemente recheada pelos sopros dos músicos da Orquestra Imperial, em arranjo de Elisio Freitas.

Sobre Elisio, produtor do seu primeiro disco solo e parceiro em quatro músicas, Aline é superlativa: “É multi-instrumentista, produtor, compositor, professor. Tenho um pouco de dificuldade de compor em parceria, mas com ele as composições sempre fluíram muito bem. Eu costumo chegar com letra e melodia e ele com harmonia. A música que abre o disco, por exemplo, O seu amor, foi feita em poucos minutos. Ele fez uma base e gravou, eu cantei em cima já com letra e pronto, nasceu. São sempre as minhas preferidas.”

Aline ouviu muita música brasileira, que é paixão de seu pai. Nelson Gonçalves, Gonzaguinha, Cartola, Chico Buarque, Vinicius de Moraes… “Meu irmão, por outro lado”, lembra ela, “só ouvia música internacional, então cresci ouvindo e tocando de tudo um pouco… MPB, pop, rock. Na minha adolescência me apaixonei por bandas como Radiohead, Metric, Portishead, que têm um som mais denso e introspectivo. Acho que daí vem a influência dos climas que procuro criar e dos beats eletrônicos. Hoje escuto muita música brasileira, acho que estamos muito bem servidos. Otto, Mãeana, Curumin, Céu, O Terno, Pietá, Baleia, Júlia Vargas, Duda Brack… a cada dia eu me apaixono mais.”

Única canção não-autoral do CD, Indiferença, de Zezé di Camargo, ganhou uma versão muito particular: “Ela tem uma mistura de nostalgia e identificação que eu nem sei explicar direito. Só sei que depois que cantei a primeira vez tive logo vontade de gravar. Já que o disco fala justamente sobre rupturas, a música caiu como uma luva.”

A relação com o músicos foi parte essencial na gravação deste novo CD, pontua Aline: “Sou muito fã dos músicos que convidei para gravar o disco. Tirando o Elisio, nunca tinha tocado com nenhum deles. O Lourenço Vasconcellos (bateria) e o Pablo Arruda (baixo) eram músicos que eu via bastante nos shows por aí e sempre ficava encantada. O Bem Gil (guitarra) e o Alberto Continentino (baixo em Eu me cuido), foram sugestões do Domenico, que eu já conhecia também, são geniais! Chamei o Felipe Pacheco Ventura para gravar violino na faixa Não sei de você. Aí, para fechar, o Domenico convocou um timaço para gravar os sopros em Eu me cuido, fiquei muito feliz com o resultado.”

Nota: 9/10.

Fonte:

  • Biscoito Fino

Matthew Halsall – Sending My Love (2008)

“Beleza contemplativa capaz de criar um mundo sonoro novo

Compositor, trompetista, produtor, DJ e fundador da Gondwana Records, Matthew sempre desempenhou muitos papéis. Mas no cerne de tudo o que ele faz, é, antes de mais nada, um artista e um músico. Um trompetista cuja maneira impassível e comovente de tocar irradia um tipo de beleza reflexiva capaz de engendrar seu próprio mundo sonoro. Com sua banda faz um som que se baseia na herança do jazz britânico, no jazz espiritual de Alice Coltrane e Pharoah Sanders, bem como na world music, nas suas influências eletrônicas e, até mesmo, na arte e arquitetura modernas. De fato, ele consegue criar algo exclusivamente seu.

Sending My Love é um álbum que remete ao estilo praticado pelos mestres do estilo no final dos anos 1950 como o americano Miles Davis e, talvez também, o britânico Ian Carr na época em que colaborou com Don Rendell. Porém, o que mais impressiona neste álbum, juntamente com a excelência das composições, é a combinação perfeita do trompete com a flauta, algo que dificilmente se viu na história do jazz. Nosso flautista se chama Roger Wickham, que já mostra a que veio logo na faixa abertura, mas que está presente em todos os grandes momentos do disco. O trabalho é inteiramente feito de destaques, por isso, fugindo ao nosso padrão, tentaremos descrever as canções do ponto de vista de um não-músico:

1) On The Other Side Of The World, se introduz por um adorável solo de flauta na abertura com desdobramentos instigantes. 2) Reflections é uma balada belíssima que lembra Miles no seu auge no início dos anos 1960. O piano de Adam Fairhall se destaca na edificante 3) Freedom Song’, que se anuncia através de uma inflexão bem ao estilo blues. Na sequência, 4) Sending My Love nos trás à mente o veterano pianista Horace Silver de meados dos anos 1960, tanto quanto o baterista Gaz Hughes lembra o grande Roger Humphries. A faixa final, Sachi, é a deixa para Nat Birchall brilhar com um solo apaixonadamente melancólico de sax soprano que nos leva de volta ao romantismo inveterado dos anos 50.

À edição de luxo, foi adicionada a bonus-track, 6) This Time, que poderia ser uma mera recompensa para os fãs mais compulsivos, no entanto, acaba por ser um dos momentos mais emocionantes do álbum e nos ajuda a compreender a ideia de uma música cujo tipo de beleza seria capaz de criar um universo sonoro novo.

Nota: 9,5/10.

Referências:

Rosa Passos – Pano Pra Manga (1996)

“Melancólico e bucólico”

Havendo sido equiparada, pelo talento e estilo musical, ao grande João Gilberto, Rosa Passos é cantora, compositora e violinista. Nasceu e viveu cercada de música na capital da Bahia, Salvador. Iniciou-se como profissional no ano de 1972, mas seu primeiro álbum, Recriação, só veio no ano de 1979. Um trabalho em colaboração com o compositor Fernando de Oliveira, parceiro de sempre. Depois de um longo hiato, em 1991, lançou seu segundo álbum, Curare, que contém clássicos de gênios da MPB como Tom Jobim, Ary Barroso, Carlos Lyra, entre outros. Em 1996, lança o CD Pano pra manga, do qual falaremos:

Neste disco, Rosa assina 10 das 13 composições. E, além do tradicional companheiro, Fernando de Oliveira, faz parcerias inéditas e certeiras com o poeta Paulo César Pinheiro e com outros grandes compositores, como Sérgio Natureza, Ivan Lins e Vitor Martins. Com ares de seriedade e de delicadeza, mescla em perfeita harmonia ambientes melancólicos e bucólicos transportando o ouvinte por diversas paisagens sonoras durante aproximadamente 50 minutos. Na verdade, se trata de uma coleção de joias para os ouvidos e, como tal, todas as canções tem potencial. No entanto, inevitavelmente tem seus destaques:

A faixa de abertura, 1) Verão, nos oferece uma imagem de contraste típica daqueles que se sentem sozinhos na multidão. 3) Já em Com Açúcar e Com Afeto, com a participação do próprio Chico Buarque, as inflexões são de um tom tão carinhoso que inverte a nossa perspectiva sobre o que é descrito na canção. 5) enquanto a faixa-título, Pano pra Manga, além da melodia, se destaca também pela letra, em que o autor faz uso de um interessante jogo de palavras. 7) Abajur Lilás (homenagem à grande cantora Dalva de Oliveira) é um dos momentos mais marcantes do disco. Ivan Lins e Rosa se alternam numa comovente interpretação. 9) É luxo só é um samba em que os autores exaltam a beleza e o gingado da mulata brasileira cuja releitura de Rosa, mais uma vez dá um brilho especial.

Por fim, Pano Pra Manga, como o próprio nome sugere, é um disco que rende predicados: do repertório às participações, nunca falta em beleza.

Nota: 9,5/10.

Referências: