Quinteto de Maria João – Cem Caminhos (1985)

Maria João Monteiro Grancha nasceu em Lisboa, no dia 27 de Junho de 1956, filha de pai português e mãe moçambicana. Da infância guarda imagens dispersas e coloridas de uma África já não tão distante assim. Das férias passadas por lá, do calor, das praias com redes por causa dos tubarões… A entrada na adolescência revelou o seu espírito rebelde e inquieto. A menina gordinha, de óculos e cabelo encrespado não gostou nada de ser chamada “caixa de óculos” e “Gungunhana” pelos colegas louros e magros do Colégio Inglês, St. Julian School, e aprendeu a defender-se como podia, com um murro aqui e um pontapé ali.”

“… Cem Caminhos, o segundo álbum com o quinteto inclui 2 poemas musicados de Eugénio de Andrade e clássicos como Take Five, Lush Life ou My Favorite Things. No ano seguinte, arrecadou dois prémios relevantes, um no prestigiado Festival de Jazz de San Sebastian (Espanha) e o outro atribuído pela Revista Nova Gente, como intérprete feminina do ano.”

O quinteto, formado por ela mesma com Mario Laginha (piano), Carlos Martins (saxofone alto e tenor), David Gausden (baixo) e Carlos Vieira (bateria), todos portugueses, subiu ao palco do Festival de Jazz de Cascais, para uma performance que serviu como a prova de fogo, de onde saiu com os aplausos do público e da crítica.

Abaixo, uma interpretação muito pessoal da emblemática Take Five, de Paul Desmond:


Referências:

Gary Peacock – Voices (1971)

“Da filosofia zen budista ao genuíno jazz americano”

Gary Peacock (1935) é um contrabaixista americano de jazz. Após o serviço militar na Alemanha, no início dos anos 60, trabalhou na costa oeste com Barney Kessel, Bud Shank, Paul Bley e Art Pepper. Depois, mudou-se para Nova Iorque, onde tocou com Bley, Bill Evans Trio (com Paul Motian) e o trio de Albert Ayler com Sunny Murray. Há relatos de que também tenha se apresentado com Miles Davis, quando teria substituído temporariamente o fantástico Ron Carter.

No final dos anos 60, passou um tempo no Japão, abandonando a música temporariamente para estudar a filosofia zen. Depois de retornar aos Estados Unidos em 1972, ele estudou Biologia na Universidade de Washington em Seattle e ensinou teoria musical no Cornish College of the Arts de 1976 a 1983. Em 1983, ele se juntou a “Standards Trio” de Keith Jarrett com Jack DeJohnette (os três músicos já haviam gravado Tales of Another em 1977 para a ECM Records, sob a liderança de Peacock). Entre os álbuns do trio estão Standards, Vol. 1 e Standards, vol. 2 e Standards Live. Com o rompimento do “Standards Trio” em 2014, Peacock decidiu continuar sua carreira como líder de seu próprio grupo de jazz, com Marc Copland no piano e Joey Baron na bateria. Em seu aniversário de 80 anos (2015), ele esteve em turnê mundial com esse trio para apoiar o lançamento do ECM.

NOTA: 10/10.



Referências:

John Mayall – Jazz Blues Fusion (1972)

“Um álbum ao vivo de duas partes”

John Mayall (29/11/33) é um bluesman britânico cuja carreira se estende por mais de 50 anos. Na década de 60 ele fundou a banda John Mayall & the Bluesbreakers, que contou com alguns dos mais famosos artistas de blues e Rock da época. Dentre os quais destacam-se Eric Clapton, Peter Green, Jack Bruce, John McVie,  Mick Fleetwood, Mick Taylor, Harvey Mandel, Larry Taylor, Aynsley Dunbar, Hughie Flint, Jon Hiseman, etc…”

Jazz Blues Fusion é um exemplo perfeito do que os artistas descolados de hoje se esforçam tanto para projetar e alcançar: suave sem ser forçado cuja inspiração deve ter origem nas profundezas de um espírito livre e despreocupado. Ao ouvir essa música, a pessoa imediatamente se deixa levar pela alegria e pelo entusiasmo das apresentações. Esses músicos não estão trabalhando; seus corações cantam e dançam enquanto suas mãos encorajam amorosamente os instrumentos a produzirem belos sons. Essas canções são uma lufada de ar fresco; eles são uma verdade simples e tentadora, convidando os espíritos cansados a se alegrar.

O álbum ao vivo foi gravado em duas partes: a primeira, num show ocorrido no Boston Music Hall em 18/11/71. E a segunda, uma compilação de dois shows realizados no Hunter College em Nova York, em duas datas. Respectivamente 3 e 4/12/71.

NOTA: 9/10.


Referência:

Chuck Berry – Blues (2003)

” O Blues tem um filho e ele se chama Rock N’ Roll”

Se é verdade que, “O Blues teve um filho e que ele se chama Rock N’ Roll”¹, então nenhum domingo será mais blues do que este (19/03/17). Ontem faleceu aquele que, por décadas, deu um brilho especial ao Rock’n’Roll. Nascido em 18/10/26 em St. Louis, no Missouri, Charles Edward Anderson Berry – Chuck Berry – como é popularmente conhecido, teve sua morte confirmada às 13h26 do dia de ontem (18/03/17). Um minuto de silêncio, por favor!

Chuck Berry cresceu no blues, tendo Muddy Waters como um herói em particular, então quando ele assinou com a Chess Records em meados dos anos 50, a gravadora imaginou que estavam contratando um artista de blues, mas seu estilo instigante de tocar guitarra e sua propensão para escrever músicas mais frenéticas deixavam de lado todos os clichês do blues. Sua música era inovadora, alegre e tinha o poder de fazer as pessoas balançarem o corpo. Era realmente empolgante e diferente, era algo que despertava nas pessoas uma vontade quase compulsiva de agitar e rolar. Era o Rock ‘N’ Roll, um estilo novo, feito sob medida para a rebeldia dos jovens da época. Mas antes dessa descoberta, Berry mostrou algumas de suas composições mais bluesísticas para o Chess (Dono da gravadora), vários dos quais estão presentes neste disco que é uma coletânea de blues digna dos seus maiores nomes.

É intrigante imaginar o que poderia ter acontecido se Berry tivesse se tornado um músico de Blues. Talvez não tivéssemos o rock ‘n’ roll. Mas, logicamente, se não tivesse sido pela mente inquieta de Berry , certamente alguém teria que inventá-lo. Os destaques incluem a poderosa Wee Wee Hours, uma versão chocante de Down the Road a Piece, de Don Raye, uma versão ousada para Things I Used To Do de Guitar Slim, o híbrido Driftin ‘Blues e uma versão acelerada para St. Louis Blues, de WC Handy. O trabalho de guitarra de Berry é revelador e seu tom é sempre refrescante e cheio de energia. Um grande disco de blues daquele que teve a ousadia de inventar o rock ‘n’ roll.

NOTA: 10/10.


Referências:

¹ Frase atribuída à  Muddy Waters em 1977.

Tal Farlow – 78 (1978)

“Ainda hoje um trabalho atual e sólido”

Seu nome original é Talmage Holt Farlow, mas Tal Farlow funciona muito mais que como nome artístico, é quase um apelido. Nascido no estado de Carolina do Norte/USA em 07/06/1921, Farlow tornou-se um dos maiores guitarrista de jazz de sua época. Considerado também um dos maiores de todos os tempos, ele foi apelidado de “Octopus (polvo)” por conta de suas mãos grandes, que se espalharam pelo braço da guitarra, como se fossem tentáculos.

1978 é tido pelos especialistas como um dos álbuns mais obscuros do artista e, a bem da verdade, não consta no Spotify. Este álbum, ainda não reeditado em CD (até a ocasião da escrita deste texto), apresenta o artista performando num trio composto por ele próprio e pelo baixista Gary Mazzaroppi e o baterista Tom Sayek. Apresentando duas composições próprias (Mahoney’s 11 Ohms e Gymkhana no Soho), e complementando por releituras  de clássicos do jazz. Mostra músicos despojados e em boa forma, estando, inclusive, em alguns momentos, excessivamente relaxados – que não os atrapalha de forma alguma. Todos ouvem e reagem atentamente uns aos outros e isto revela um grande entrosamento advindo da amizade entre os músicos.

1978 é ainda hoje um trabalho atual e por isso podemos dizer sem medo de errar que é um dos grandes momentos da carreira do músico.

NOTA: 10/10.


Referências: